Voando com os ventos da mudança o Café com
Tripas traz, como sempre, conteúdos de qualidade inquestionável (seja
ela boa ou ruim). Para a postagem literária desta semana, que há de prosseguir
com o tema da mudança e da (im)possibilidade de se criar o novo, trazemos o
chileno Pablo Neruda para dar seu lírico depoimento. O poeta estudou pedagogia,
adentrou de cabeça no marxismo, foi diplomata e abriu mão de concorrer à
presidência para que Salvador Allende o fizesse. Conta-se, inclusive, que,
quando o governo do político foi desfeito para a imposição do regime militar,
amargou profundamente. Todavia, a despeito de sua posição política, Neruda teve
um grande reconhecimento em vida de sua obra literária, ganhando o Nobel de
Literatura em 1971.
Assim, podemos garantir, leitor: é coisa
fina.
Não me sinto mudar
Não me sinto mudar. Ontem eu era o
mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus
entusiasmos
Cada dia mais raros são os meus
cepticismos,
Nunca fui vítima sequer de um pequeno
orgasmo
Mental que derrubasse a canção dos meus
dias
Que rompesse as minhas dúvidas que
apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de
melancolia,
Um pouco de tédio que me deram os
homens.
Não mudei. Não mudo. O meu pai está
muito velho.
As roseiras florescem, as mulheres
partem
Cada dia há mais meninas para cada
conselho
Para cada cansaço para cada bondade.
Por isso continuo o mesmo. Nas
sepulturas antigas
Os vermes raivosos desfazem a dor,
Todos os homens pedem de mais para
amanhã
Eu não peço nada nem um pouco de mundo.
Mas num dia amargo, num dia distante
Sentirei a raiva de não estender as mãos
De não erguer as asas da renovação.
Será talvez um pouco mais de melancolia
Mas na certeza da crise tardia
Farei uma primavera para o meu coração.

