terça-feira, 22 de maio de 2012

Não me sinto mudar



            Voando com os ventos da mudança o Café com Tripas traz, como sempre, conteúdos de qualidade inquestionável (seja ela boa ou ruim). Para a postagem literária desta semana, que há de prosseguir com o tema da mudança e da (im)possibilidade de se criar o novo, trazemos o chileno Pablo Neruda para dar seu lírico depoimento. O poeta estudou pedagogia, adentrou de cabeça no marxismo, foi diplomata e abriu mão de concorrer à presidência para que Salvador Allende o fizesse. Conta-se, inclusive, que, quando o governo do político foi desfeito para a imposição do regime militar, amargou profundamente. Todavia, a despeito de sua posição política, Neruda teve um grande reconhecimento em vida de sua obra literária, ganhando o Nobel de Literatura em 1971.
Assim, podemos garantir, leitor: é coisa fina.



Não me sinto mudar

Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
Cada dia mais raros são os meus cepticismos,
Nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo

Mental que derrubasse a canção dos meus dias
Que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
Um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
Cada dia há mais meninas para cada conselho
Para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
Os vermes raivosos desfazem a dor,
Todos os homens pedem de mais para amanhã
Eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
Sentirei a raiva de não estender as mãos
De não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia
Mas na certeza da crise tardia
Farei uma primavera para o meu coração.


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