Para aderir definitivamente ao
espírito da decadência, o Café ressuscita mais um literato maldito
esta noite. Contraindicado para menores de dezoito anos, hoje nos juntamos aos
versos pornográficos e ofensivos de Manuel Bocage. Se você (como eu) dormiu nas
aulas de literatura do ensino médio, saiba que Bocage foi um poeta do século
dezoito, um dos grandes expoentes do arcaísmo. E o que tem de interessante
nisso? Você poderá perguntar. Pois bem, primeiramente, direi que o homem não teve uma vida
de erudito, trancado em sua biblioteca na busca pelo ser do mundo, sem amigos,
morrendo, enfim, de pneumonia ou de tédio. Na verdade, Bocage foi preso várias
vezes (chegou a ser capturado pela inquisição), sofreu intensamente por amor,
foi para o exército e cultivou muitos inimigos, tendo uma vida bastante agitada. Em segundo lugar, sua obra não
se contentava com as temáticas tradicionais da poesia e o tratamento polido e
responsável dado aos temas. Bocage, apesar de lusitano, tinha uma alma perfeitamente
brasileira. O poeta ridicularizava personagens de sua época, escrevia com muitos palavrões
sobre orgasmos, putas e outras coisas que fazem a vida ser bonita. Enfim, um
cara legal que esculhambava tudo, todos, e ainda conseguia se promover com isso - poeta.
Assim, nada melhor para iniciar uma
triste semana do resto de nossas vidas miseráveis do que uma boa dose do
pensamento de um homem trapo, tão humano, tão cada um de nós.
Soneto do epitaphio
La quando em mim perder a humanidade
Mais um daquelles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o theologo, o peralta,
Algum duque, ou Marquez, ou conde, ou frade:
Não quero funeral communidade,
Que engrole “sub-venites” em voz alta;
Pingados gattarões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:
Mas quando ferrugenta enxada endosa
Sepulchro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitaphio mão piedosa:
“Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro”.
* O quadro que
serve de banner a esta postagem é do pintor inglês Henry Wallis, chama-se The death
of Chatterton. Ele retrata o suicídio (por ingestão de arsênico) do poeta
Thomas Chatterton. Contudo, não se iluda, leitor, pois a morte por envenenamento é bem menos poética do que o quadro pinta.

