Servindo
um tanto mais de Café que Tripas abrimos a semana com um dos maiores
intelectuais do século vinte: Bertrand Russell.
Conde,
político, matemático, filósofo, historiador, entre várias outras coisas, Russell se
levantou contra as opiniões políticas vigentes, opondo-se as armas nucleares, a
guerra do Vietnã e tratando de assuntos polêmicos - como liberdade sexual - com uma espontaneidade que feria gravemente o mundo conservador em que se
encontrava. Ao contrário de muitos de seus colegas filósofos, escreveu de modo claro e acessível, refletor de seu caráter transparente; seu manual “História da Filosofia Ocidental” vendeu muito entre
os leitores leigos, ajudando a popularizar esse saber entre o publico leigo. Produziu
diversas inovações na Filosofia da Lógica e na Filosofia da Matemática. Foi também preceptor e amigo de Wittgenstein, o monstro que mudaria a história da
filosofia indelevelmente. Em suma, alguém que merece ser lido e homenageado a cada geração.
Hoje,
para introduzir na semana o tema do conservadorismo, selecionamos não um texto de um tema filosófico particular, mas das opiniões políticas de Russell. Chama-se “As pessoas distintas” (*). Contudo, dado o seu tamanho, selecionamos somente alguns excertos para disponibilizar aqui. Fiquem com um pouco de filosofia,
sabedoria e bom gosto.
Nota: o
texto também pode ser encontrado com o título “As pessoas simpáticas” de acordo com a tradução. Em português ele foi publicado no livro "Por que não sou cristão".
Sobre como definir uma pessoa distinta:
“A
característica principal das pessoas finas é a prática louvável de aperfeiçoar
a realidade. Deus fez o mundo, mas as pessoas requintadas acham que elas
poderiam ter feito melhor tal trabalho. Existem muitas coisas, na obra Divina,
que seria blasfêmia desejar-se fossem feitas de outro modo, mas às quais a
gente pode muito bem referir-se. (...) Um dos objetivos principais das pessoas
distintas é, sem dúvida, reparar essa injustiça não premeditada. Procuram fazer
com que o modo de vegetação biologicamente ordenado seja praticado quer
furtiva, quer friamente, e que aqueles que o praticam furtivamente se
encontrem, quando descobertos, entre pessoas refinadas, devido ao dano que o
escândalo poderá causar-lhes. Procuram fazer também com que se saiba, de um
modo decente, o mínimo possível sobre o assunto; procuram fazer com que o
censor proíba livros e peças que se refiram ao assunto, salvo quando dão motivo
a risadinhas exprimidas e maldosas. Nisso, são bem sucedidos onde quer que
consigam controlar as leis e a polícia.
(...)”
Da incapacidade das pessoas de aceitarem a verdade:
“(...)
Quem quer que haja inventado a expressão “a verdade nua”, percebeu uma
importante conexão lógica. A nudez é chocante para todas as pessoas honestas –
como o é, também, a verdade. Pouco importa qual seja o nosso setor de
atividade: descobriremos logo que a verdade é algo que as pessoas finas se recusam
a aceitar em sua consciência. Sempre que tive a infelicidade de estar num
tribunal, durante o julgamento de algum caso a respeito do qual eu tivesse
algum conhecimento particular, surpreendia-me o fato de que nenhuma verdade,
por mais crua que fosse, tinha permissão de atravessar aqueles augustos
portais. A verdade que penetra no recinto de um tribunal não é a verdade nua,
mas a verdade em vestes palacianas, a ocultar todas as suas partes menos
decentes. Não digo que isto se aplique ao julgamento de crimes sem rebuços,
tais como o assassínio ou o roubo, mas aplica-se a todos aqueles em que entra
algum elemento de preconceito, como nos julgamentos políticos, ou nos
julgamentos por conduta obscena. (...)”
De como lidam com o prazer:
As
pessoas distintas desconfiam convenientemente do prazer, sempre que com ele
deparam. Sabem que o que aumenta o conhecimento, aumenta a tristeza, e inferem
que o que aumenta a tristeza, aumenta a sabedoria. Acham, por conseguinte, que,
ao disseminar a tristeza, estão disseminando sabedoria; já que a sabedoria é
mais preciosa que os rubis, justificam-se perante si mesmos achando que, ao
agir assim, estão concedendo um benefício. Construirão, por exemplo, um
playground para crianças a fim de persuadir a si próprios de que estão agindo
filantropicamente – e, depois, impõem tantos regulamentos quanto ao seu uso que
nenhuma criança se sente lá tão feliz como nas ruas. Fazem tudo para que os
playgrounds, teatros, etc., não funcionem aos domingos, por que esse é o dia em
que os mesmos podiam ser aproveitados. As moças, em seus empregos, são
impedidas, tanto quanto possível, de falar com os rapazes. As pessoas mais
distintas que tenho conhecido levavam tão longe essa atitude, no seio da
família, a ponto de fazer com que as crianças se entregassem apenas a folguedos
instrutivos. Este grau de distinção, porém, lamento dizê-lo, está se tomando
menos comum do que em outros tempos. Antigamente, ensinavam às crianças que
Um
simples golpe de Sua poderosa varinha
Pode
mandar logo os jovens pecadores para o inferno,
e estava entendido que isso bem podia
ocorrer se as crianças se tomassem turbulentas ou indulgentes em qualquer
atividade que não estivesse destinada a prepará-los para as funções
eclesiásticas. A educação baseava-se no ponto de vista exposto em The Fairchild
Family, obra de valor inestimável quanto à maneira de se produzir criaturas
distintas. Todavia, conheço hoje poucos 83 pais que agem de acordo com esse
alto padrão educacional. Tornou-se tristemente comum desejarse que as crianças
se divirtam, e é de recear-se que as que forem educadas segundo princípios
assim tão frouxos não revelem, quando adultos, o devido horror pelo prazer.”
Finalizando:
“No
fundo, o que há com as pessoas requintadas é que elas odeiam a vida, tal como
esta se manifesta nas tendências para a cooperação, na ruidosa vivacidade das
crianças e, sobretudo, quanto ao que se refere ao sexo, pensando que tudo isso
é produto de uma obsessão. Numa palavra, pessoas distintas são aquelas que têm
as mentes mais repugnantes.”

